Quando começa o “daqui a pouco”?

Quando começa o “daqui a pouco”?
e quando termina?
é pouco o “daqui a pouco”?
é suficiente?

se eu me esquecer, distraído
alguém me lembra quando for a hora?
e qual é a hora do “daqui a pouco”?
por que não botaram no relógio?

seria útil aos adultos
que se lembram muito pouco
que – exemplo – ainda ontem
prometeram:
“- Agora não, daqui a pouco!”

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Uma quarta-feira de supermercados e desistências

Sentia os pés pesados enquanto caminhava pelo supermercado, sem rumo. A cabeça estava lotada daqueles pensamentos tão familiares, porém arrebatadores toda vez que surgiam. Escolheu, por impulso, dois saquinhos de pão de queijo e um bolinho industrializado de chocolate; estava com o estômago cheio do café da manhã que tomara em casa mas, de alguma forma, confundia a fome da alma com a fome do corpo, e aquelas fontes de carboidrato e açúcar pareciam maneiras de amenizar a inquietação daquela mente.

Ela cria planos e começa a colocá-los em prática com a mesma rapidez e certeza que desiste dos mesmos planos depois de dias, e ali, na fila do caixa de até 15 volumes, conseguiu esboçar sua próxima aventura: listou virtualmente os livros que procuraria no sebo a algumas estações de metrô dali, os equipamentos necessários para concretizar a fuga e as explicações que daria aos pais – ou será que não daria nenhuma? – , coitados, que tanto desgosto teriam (novamente). Em cinco minutos, calculou quanto custaria tudo aquilo, adicionando os gastos que eventualmente teria quando desembarcasse, e lembrou-se de adicionar à lista o lembrete de arranjar trabalho por lá, algum que suprisse suas necessidades básicas por um tempo e não desse espaço para luxo.

Conferiu a nota fiscal e saiu para enfrentar a manhã fria de São Paulo, sentindo o vento gelado invadir seu corpo e deixar suas narinas dormentes enquanto respirava. Marchava mecanicamente, o olhar fixo para dentro dela mesma, tentando entender tudo aquilo, e os olhos somente cumprindo o dever de não deixá-la tropeçar nos buracos do caminho.

Voltou para a estação, sentou em um dos bancos da plataforma e esperou. Pelo que, não tinha certeza, mas esperava com a maior contradição do mundo, transbordando ansiedade e tão serena ao mesmo tempo, como se o mundo tivesse parado e ela não tivesse desistido do seu ganha-pão há pouquíssimos minutos. Por que tinha feito isso mesmo?

Caçou na mochila o seu exemplar de Walden, relido tantas vezes, e enquanto passava os olhos pelas letras e frases conhecidas, conseguia puxar um ou dois pensamentos daquela multidão que dançava descontrolada em sua cabeça e analisá-los, sem chegar a conclusão nenhuma sobre sua própria dupla personalidade, que ora queria ser integrante, ora se isolava com extremismo da sociedade.

O trem chegou, mas ela não levantou. Estava ocupada, pois abrira um dos saquinhos de pão de queijo e os devorava com rapidez; quase com a mesma rapidez com que desistiu de seu último plano.

Aquele cheiro de mar

(Estas palavras foram escritas depois de alguns capítulos lidos de O Lobo do Mar, de Jack London, que me atiçaram a criatividade de tal modo que, junto a um áudio de 40 minutos de ondas quebrando em uma praia tocando nos fones, fui capaz de criar o que segue em um ônibus. Sempre ela, a volta para casa…)

Nos ouvidos colocou as ondas, e o balanço o embalou.

Acordou num salto e vestiu a camisa
Olhou no espelho seus olhos sem vida
Deu tapa na cara, tomou seu café
Saiu cedo de casa, na ponta do pé

Pegou o timão, agarrou com firmeza
Ninguém percebeu sua dor de cabeça
O barco, levado pelo vento do sul
Tão rápido que nem viu o céu azul

Largou e devorou – ufa – o almoço
Mas engoliu logo e nem sentiu o gosto
Capitão dando ordens e, também, o segundo
Queria sumir e esquecer-se do mundo

Foi aí que ocorreu-lhe um fato engraçado
Que o fez relaxar e livrar-se do fardo
Medo da morte não sentia mais
Morreria no mar, ali mesmo, sem cais.

A gente aceita de boa!

(Estas palavras foram escritas durante uma viagem de metrô em São Paulo, voltando do trabalho, às sete da noite.)

Ri do calor a boiada, sufocada
Como se merecesse essa piada

Espera a mãe o filho, com sono
A gente aceita o abandono!

Não fazem contato os olhos, vidrados
Alheios, alienados

Não notam mais a poesia, as mentes
Seria a cura; tão doentes…

É rotina o estresse, amigo
Somado ao peito, contido.

Ensaio sobre gente-tijolo

apesar do corpo novo,
muito já vi, nessa vida
mas nada mais me intriga
que aquela gente-tijolo

nasce de um modo
e desse jeito fica
chega a ser cômica
a insistência no cômodo

permanecem quietas
grudadas pelo concreto
dos bisavós até os bisnetos
os que se vão são patetas!

sonham, sonham outra vez
mas não se enganem, não
na ilusão ficarão
quem sabe? talvez…

(gente-tijolo só deixa de ser o que é
quando vira entulho).

Pequeno pensamento de alguém esperando seu pedido em uma cafeteria lotada

Quando estou com gente que admira a fotografia, me sinto pertencente àquele grupo. É o mesmo com gente que lê coisas parecidas com as que eu leio, pratica os mesmos esportes, ouve as mesmas músicas ou escolhe sempre chocolate como sabor indispensável de sorvete.

Mas quando me rodeio de humanos, ah… Não tem peixe fora d’água mais longe do habitat do que eu.

R.E.M.

ridículo

patético

as palavras que vieram,
palavras de adolescente –
talvez fosse uma –
a manifestação da camada mais sensível
suscetível
a fácil irritabilidade
incrédula diante de tanta falsidade
testemunhando tamanha mediocridade
culpou, infantil, a modernidade
no cômodo ao lado
a parede acusticamente mal isolada
revelava
o que a deixava de punhos
cerrados
mentalmente
por seis vezes a criança chamou
a mãe,
cabeça baixa
olhos em R.E.M.
(polegar em R.F.M?)
a tela era mais forte
que o filho de oito anos.