Sobre como Pedro viveu (ou passou) sua vida

Por alguma deficiência até aqui não identificada pelos médicos, Pedro não tinha sentimentos.

Aos 5 anos, seu rosto não tinha a capacidade de se contrair em um sorriso resultante de pura, inocente alegria por ver o Papai Noel ou o coelho da Páscoa, como o restante das crianças. Não tinha medo do bicho Papão e não derrubava uma lágrima enquanto sua mãe lhe dava chineladas por alguma traquinagem.

Aos 15, era incapaz de apaixonar-se por quem quer que fosse. Enquanto seus amigos se vangloriavam pela conquista do primeiro beijo e, consequentemente, da primeira namorada, Pedro mergulhava nas histórias empolgantes dos livros (que não lhe empolgavam como aos outros).

A energia de um banho de chuva e a vida que irradiava da grama molhada não o contagiavam; nem mesmo o mar, em toda sua magnificência, tinha a habilidade de colocar um brilho naqueles olhos vazios.

Pedro não buscou uma careira profissional – nada chamava-lhe a atenção. Não conseguia imaginar-se um executivo, professor, cientista ou músico. Música, aliás, não o tocava. Nunca teve o coração preenchido de esperança após ouvir algumas faixas e nunca se encantou com a simplicidade de uma composição em piano.

Não teve mulher ou marido; não sentiu a plenitude de se ter um filho recém-nascido nos braços; não sentiu o alívio do choro depois de um coração partido, pois seu coração nunca fora partido.

Vazio chegou, vazio partiu.

Rascunho de estória, rascunho de vida

De João foi batizado,
de moleque era chamado

Seca era a boca,
o chão,
o cantil,
a plantação.

Papai, um rosto borrado
às vezes bonzinho,
às vezes barbado,
às vezes danado de irritado.

De nada sabia João;
era certo que sentia
Vazio de razão,
No auge de sua fantasia.

De sede partiu mainha,
de mistério partiu Maria.

Calçava as botas, o papai
De malas prontas na cozinha.

Pensamentos em uma viagem matinal de ônibus

Nadar contra a corrente é sempre uma ação de coragem; seguir o rumo das águas sem se perguntar o porquê de se estar indo por este e não por aquele lado, ou a qual lugar, afinal, se chegará, é menos agressivo do que trilhar seu próprio, inédito caminho para uma vida que satisfaça seus desejos mais profundos e primitivos.

E quando alguém resolve, num impulso corajoso, se libertar da obrigação de ser “mais do mesmo”, encontra alguns passos à frente mãos furiosas segurando seus instrumentos de julgamento, como pedras, firmemente nas mãos; pobre da mente fraca neste momento, que recua como um animal ameaçado, a cabeça abaixada, submisso às ordens de uma sociedade que a preenche de regras e padrões.

As pessoas têm grande inclinação a demonstrar cortesia (em sua maioria falsa) aos que lhe são comuns e uma maior ainda a serem cruéis e insensíveis com o estranho.

To be

Se eu não notasse mais as cores
ou fugissem de mim os sabores
desta tão real e fantasiosa existência

Se o horizonte não mais existisse
e de inspirar eu desistisse,
me isentando de melhor vivência

Se fossem embora os conhecidos,
os amigos,
se aumentassem os feridos

Se acamada eu ficasse,
isolada da liberdade
Se perdesse minha identidade!

Se não restasse nada
e o nada fosse minha jornada

Ainda de poesia eu seria,
poesia eu veria,
de poesia eu viveria

e alva seria a madrugada.

Maquiagem

Dispenso semanas em um eterno looping de esperança pela sexta-feira ou meses em ansioso desejo pelas férias, coitadas, com toda a expectativa de restaurarem minha felicidade que será drenada na segunda-feira mais próxima.
Não me venha com promessas de grande sucesso em uma grande empresa; não estou interessada. Longe de mim o estresse de comprar coisas desnecessárias para impressionar mais pessoas que compram bugigangas. 

Dispenso qualquer vida pobre encarada como rica.